Reclamar é importante?

  • Reclamar é visto como algo ruim, mas é necessário que possamos colocar para fora nossas insatisfações, medos e frustrações para não acumular emoções
  • Momentos bons e ruins fazem parte da vida: tão necessário quanto agradecer e ser positivo é uma reclamação e desabafo de algo ruim
  • Tudo, claro, dentro do limite. Quando a reclamação começa a ocupar muito espaço, é preciso rever e, em certos casos, procurar ajuda

Você já foi criticado alguma vez por reclamar de algo? De qualquer coisa, seja do atendente que não deu a atenção que você esperava, seja do trânsito ou do trabalho que você não está dando conta? Tem ganhado espaço na sociedade uma censura a reclamação. É como se pessoas devessem banir todo e qualquer sentimento que não seja ligado a uma ideia um pouco mítica do que seria felicidade —como se felicidade devesse ser somente os sentimentos e as vivências positivas, prazerosas e satisfatórias. Essa, porém não é a realidade, quando a gente pensa no sentido de uma saúde mental e do que é natureza da vida mental. Por mais que seja normal ter pensamentos negativos, raiva, irritação e verbalizar por meio da reclamação, muita gente despreza tudo isso e diz que temos apenas que agradecer, pensar positivo e não reclamar, em todas as situações da vida. Agir assim, no entanto, não resolve o problema e pode até piorar, pois a pessoa acaba sufocando o que não está lhe fazendo bem.

Por que podemos (e devemos!)

reclamar Quando algo nos incomoda e falamos sobre isso, essa reclamação se torna um desabafo, e são coisas normais que devemos aprender a aceitar. Ao reclamar fazemos uma função psicológica muito importante que é a catarse, quando “purificamos” nossos sentimentos liberando os sentimentos que nos afligem. Colocar essa energia para fora torna a reclamação algo positivo. Estar em acordo com a experiência mental legítima daquilo que a gente vive em relação aos sentimentos, acontecimentos e experiências com outro é fundamental e reclamar é uma parte disso. Poder expressar o que sente, que está frustrado ou com raiva ou qualquer outro sentimento semelhante, é o que vai determinar uma maturidade mental. Reclamar é poder estar em sintonia com a realidade psíquica e importante, pois demonstra autenticidade e legitimidade com aquilo que se é, independentemente de qual é a natureza do afeto implicado, seja de medo, de raiva, de felicidade ou tristeza.

O que acontece quando não reclamamos?

Manter somente atitudes positivas, de acordo com os especialistas, é um erro. Ter pensamentos e emoções consideradas negativas é natural e todos temos. Buscar encarar as situações sempre de uma forma positiva, quando muitas vezes não é, pode fazer com que a pessoa utilize-se de máscaras, como o uso de substâncias ilícitas ou álcool em excesso, por exemplo. Além disso, represar a reclamação e os sentimentos ligados a ela acaba criando sintomas prejudiciais à saúde mental. Quando a pessoa não exprime sua insatisfação, não reclama ou desabafa, isso pode desencadear, por exemplo, uma situação onde a pessoa acumula episódios contínuos de não ser ela mesma, não expressar o que ela sente, não ser autêntica consigo mesma.

Isso gera um represamento de emoções e em algum momento essa pessoa pode não suportar mais. Existe um limite de que a vida mental vai conseguir acolher e, então, esses sentimentos explodem.

Por isso que vemos muitas vezes situações extremistas, de agressividade, violência aparentemente sem um sentido, mas, que são frutos de um contínuo processo de substituição de sentimentos legítimos de insatisfação e frustração, e acaba ficando com atitudes muitas vezes violenta.

Para um observador externo pode ficar sem sentido, porque não dá para dizer que não representa a extensão da vivência ou da atitude que pudesse desencadear, mas, às vezes uma questão menor vai desencadear todo afeto represado de frustração de raiva de outros sentimentos ligados dessa natureza e que venha à tona numa atitude aparentemente desproporcional. Esse é um dos perigos de fazer esse mascaramento que a gente vem assistindo continuamente na sociedade atual, como uma espécie de círculo vicioso.

Reclamar também pode ser um sinal de alerta da saúde mental Se o excesso de positividade é prejudicial, o oposto também é. Ninguém gosta de ficar perto de alguém que só reclama o tempo todo. Qual é então o limite saudável de reclamações? Depende do quanto ela se repete e quais aspectos que ela toma da sua vida, ou seja, se é muito frequente e se atrapalha nas suas tarefas diárias.

Nos últimos tempos a tendência é banir os chamados aspectos negativos, como pensamentos, reclamações e sentimentos equivalentes, mas, eles são necessários pois são responsáveis pelo equilíbrio da vida mental. Todos os afetos da mente são da natureza humana e não pode ter apenas um ou outro. Abafar esses sentimentos ditos negativos acaba criando sintomas de doenças. O que aparentemente seria para melhorar a sociedade, torna-se uma doença social, que inicialmente é uma doença de cada pessoa que tenta cumprir esse lugar de ter que ser feliz a qualquer preço, quando na verdade é a tentativa de se aproximar de padrões que não condizem com a realidade da saúde mental humana.

Por isso é preciso diferenciar uma reclamação associada a expressão de uma frustração, medo ou decepção por algo ou alguém, desabafo que faz parte do crescimento e, se for com uma pessoa específica ou grupo, aprofundar essas relações, de reclamações sem fundamento, que se torna uma característica de alguém que só reclama. Não são reclamações de alguém que está fazendo outro saber o que ele sente diante de ações dessa pessoa ou grupo, muitas vezes ele está expressando um alerta para sua própria vida mental, como um pedido de ajuda.

Muita gente pensa que a depressão vai aparecer de uma forma muito característica, caricata, em que a pessoa vai ficar triste, se fechar no quarto, não vai falar com os outros. Essa é uma das formas de depressão, mas existem outras e muitas vezes a irritação permanente, a reclamação continua e uma insatisfação com tudo pode estar comunicando algo sobre essa pessoa. Para uma boa saúde mental, manter o equilíbrio é fundamental. A vida tem altos e baixos, aceitar isso é uma atitude madura. Se não houver momentos ruins, não saberemos dar valor aos bons momentos. Essa dualidade nos ensina a ser críticos, a saber a diferença do que é bom e o que é ruim.

Quando nivelamos tudo, deixamos passar momentos bons por não sabermos o quanto eles nos são bons, assim como não valorizamos os aprendizados dos momentos ruins.

 

Fonte:Diego Garcia  – Colaboração para o VivaBem – 22/02/2020

Denise de Sousa Feliciano, psicóloga e psicanalista membro da SBPSP (Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo) e presidente do Departamento de Saúde Mental na SPSP (Sociedade de Pediatria de São Paulo) e Luiz Scocca, psiquiatra da ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria).

 

 

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