Ela criou ONG que combate pobreza e violência contra mulher e atraiu Magalu

ONG: O Brasil ocupa o segundo lugar no ranking de exploração sexual de crianças e adolescentes, segundo dados do Instituto Liberta. Por ano, são mais de 500 mil vítimas, sendo 75% delas meninas e, em sua maioria, negras. Amanda Oliveira, 31 anos, conhece bem essa realidade. Suas irmãs foram abusadas sexualmente por um tio e elas moraram por muito tempo em um bairro dominado pelo tráfico de drogas e com alto índice de prostituição infantil. Além disso, ela precisou lidar com a ausência de direitos básicos, como alimentação e saúde.

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“Lembro de uma época em que minha mãe comia apenas uma vez ao dia para que eu e minhas irmãs pudéssemos nos alimentar ao menos duas vezes. A pobreza é terrível”, afirma. Foram anos de abusos e escassez que deixaram cicatrizes físicas e emocionais em toda a família. “Eu precisava fazer algo para mudar aquela realidade.”

Assim, em meio ao caos, Amanda começou a ver que havia esperança. Ela foi matriculada em um projeto social a poucas quadras de sua casa em São José do Rio Preto, no interior paulista. Foi ali que percebeu que podia, sim, transformar suas dores em ação para mudar a realidade.

Em 2016, ela fundou o Instituto As Valquírias, que atua para oferecer oportunidades para meninas, mulheres e seus filhos em situação de vulnerabilidade social e emocional. A ideia é combater os três maiores problemas da comunidade onde atuam na zona norte de São José do Rio Preto: tráfico de drogas, trabalho infantil e prostituição. “Levar às mulheres educação e conhecimento sobre seus direitos tem sido uma ferramenta poderosa de combate contra a exploração sexual”, explica Amanda.

Shopping das Valquírias, em São José do Rio Preto (SP) Imagem: Divulgação

Ao todo, o Instituto conta com 38 programas sociais nas áreas de educação, qualificação profissional e cidadania com atuação em sete frentes: Valquírias Musical, Valquírias Princess, Shopping das Valquírias, Agro Valquírias, Favela 3D- SJRP, Valquírias Digital e Valquírias Education. “A meta é oferecer oportunidades para que as desigualdades social e de gênero sejam vistas somente nos livros de história”, diz.

O instituto realiza sete mil atendimentos diretos e indiretos mensalmente e serve 98 mil refeições por ano. O nome do negócio faz referência a uma mentora do projeto social que Amanda frequentou ainda criança. Ao projeto, ela atribui a razão pela qual não se tornou mais um número nas estatísticas. “Eu não fui explorada sexualmente porque me ensinaram ali sobre meus direitos”.

Começo difícil na ONG

“Quando relatamos casos de violência e abuso, ouço: ‘prefiro nem saber’. Na medida em que a sociedade tapa os olhos para não encarar essa dolorosa realidade, a demanda vai aumentando”, diz. Para iniciar o negócio, Amanda precisou de coragem e persistência. “O começo foi difícil. Mas, apesar de não ter dinheiro, contava com cinco meninas, entre 13 e 14 anos, que me ajudaram. As chamo de cofundadoras por isso”, diz.

As meninas participavam de um grupo musical que fazia apresentações pelo bairro, o que ajudou a chamar a atenção para a ONG. Além disso, Amanda ensinou a elas sobre gestão e trabalho voluntário. O primeiro passo foi desenhar em uma lousa tudo o que sonhavam para, assim, buscar recursos. Nesse processo, se depararam com muitos desafios.

“Lembro de fazer uma reunião com um empresário que, no final da conversa, tentou me agarrar”, diz. “Fiquei pensando se gostaria mesmo de seguir com o projeto. Duvidei de mim, me culpei, me senti incapaz e achei que não conseguiria”, diz. Mas Amanda não desistiu. “Depois de três semanas paralisada e de muita terapia, levantei mais forte. Afinal, dentro de mim moram duas mulheres: a que luta pelo fim da desigualdade de gênero e a que vive a desigualdade de gênero.” Ela fez outras reuniões e, mesmo sem recursos, tocou o negócio.

Amanda Oliveira com Edu Lyra, da Rede Gerando Falcões Imagem: Ricardo Milani

Parceria com Carolina Herrera e Magalu

Com o tempo, o instituto começou a chamar atenção de grandes companhias. A ONG integra, hoje, a Rede Gerando Falcões e é considerada a principal organização filantrópica brasileira dedicada à promoção social de meninas e mulheres periféricas, com 18 premiações, incluindo um reconhecimento internacional concedido pela empresária e estilista venezuelana radicada nos Estados Unidos Carolina Herrera. Herrera atualmente é parceira do instituto, assim como as marcas Motorola, Magalu e Cia Marítima.

Em 2021, a ONG implementou o departamento de ciência de dados e, este ano, está sendo um período de estudo e pesquisa. “A desigualdade social e de gênero são feridas sociais que precisam ser investigadas com muita seriedade e profundidade. As perguntas que temos feito hoje são: ‘O que mantém uma mulher na extrema pobreza?’ ‘Quais são as características das mulheres que estão no início da sua autonomia?’ ‘Qual é a jornada percorrida por aquelas que já se emanciparam socialmente?’, diz. Com essas respostas, a ideia de Amanda é ser mais assertiva nos programas de combate à desigualdade social e de gênero.

Para atuar nessa área, ela ressalta cinco características essenciais: inovação, criatividade, impacto, foco no feminino e transparência. “A disputa pela atenção é muito grande, todos os dias questões destrutivas e desnecessárias insistem em tentar atravessar meu caminho, mas me mantenho vigilante e focada em fazer o que é necessário”, completa. Tudo isso sem medo e com determinação. “Estou blindada contra aquilo que tenta me distrair. O medo é uma distração”, diz.

Fonte: UOL

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