Mulheres dão um drible no machismo e conquistam espaço no setor de TI

O setor de Tecnologia da Informação é um dos que mais abrem oportunidades deemprego em todo o mundo. E apesar de ser considerado um segmento masculino, aos poucos o setor tem se aberto para contratação de profissionais do gênero feminino.

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Segundo os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), houve um acréscimo de 60% da participação feminina no setor. O número de mulheres no segmento, que antes estava em 27,9 mil em 2017, passou para 44,5 mil no país.

Só para se ter uma ideia, em 2019, o total de homens era em torno de 220,2 mil, registrando um aumento de 6% no número de profissionais em relação a 2017.

Se o crescimento delas continuar no mesmo ritmo, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) aponta que o total de trabalhadoras devem ultrapassar o de homens nos próximos 10 anos. De acordo com informações do setor, elas representam 20% da mão de obra.

Essas trabalhadoras passaram a se destacar em setores como programação, desenvolvimento e liderança.

É o caso da desenvolvedora de front-end da Mitis, Thais Leal Teixeira de Oliveira, de 29 anos. A jovem é formada em gastronomia e chegou a ter um restaurante há alguns anos, mas precisou fechar o estabelecimento. A migração para outra carreira foi influenciada pelo marido, que atua na área de informática.

“Na época do restaurante, eu tinha um blog e acabei desenvolvendo algumas habilidades para a montagem desta página. Depois que fechei meu negócio, fui trabalhar com o meu marido, que tem uma empresa no ramo. Primeiramente, fiquei atuando na área administrativa para depois alcançar em outros voos. Na época, queria ser mais útil e perguntei a ele o que eu poderia estudar para ajudar no desenvolvimento dos projetos. Foi assim que cheguei até a linguagens de programação “, comenta.

O trabalho de Thais é fazer a programação em HTML e desenvolver a parte visual dos programas. Há pouco tempo, ela trocou de empresa em busca de novas oportunidades e para aprimorar os seus conhecimentos.

“Como tinha afinidade com algumas ferramentas, acabei desenvolvendo um projeto na Mitis e fui contratada. Sou a única mulher da empresa na área de desenvolvimento, um setor que vem crescendo muito. O público feminino consegue dar conta de várias coisas ao mesmo tempo, é detalhista e faz a diferença no resultado final do produto. Recomendo que, quem tiver aptidão, deve estudar bastante e correr atrás dessas oportunidades”, diz Thais Leal Teixeira de Oliveira, desenvolvedora de front-end.

A gerente de serviços da Sakhya, Patrícia Costa, de 46 anos, tem mais de 20 anos de carreira na TI. Ela atuou por muito tempo como analista de sistemas, na implantação dos programas dentro das empresas. O desafio de ocupar uma posição na área de gestão veio há três anos.

“Desde quando comecei, muita coisa mudou. No final dos anos 90, só existiam homens, inclusive na faculdade onde cursei Ciência da Computação. Hoje, na Sankhya, as equipes são quase que meio a meio. Aos poucos, vamos ganhando voz e espaço neste mercado ainda muito masculino”, comenta.

A escolha pela carreira foi feita pela afinidade com a área de exatas e com a computação gráfica.

“As meninas que se identificarem com esta carreira devem seguir em frente. Basta querer e ter boa vontade para ocupar espaço dentro das empresas. O setor dá muito futuro para todas nós e é o que mais cresce em número de oportunidades”, diz Patrícia Costa, gerente de serviços.

A analista de sistemas da Loga, Gracieli Ferreira Ribeiro, de 38 anos, também está no mercado de TI há muitos anos, mas a escolha pela profissão ocorreu por acaso. Ela era bolsista em uma escola quando recebeu a oportunidade de fazer o curso técnico de Processamento de Dados. Na verdade, o sonho da profissional era estudar Letras.

“Quando terminei o curso não tinha bagagem para fazer vestibular na área de humanas, pois a minha base era muito técnica. Fiz estágio em uma grande empresa e isso contou muitos pontos para minha carreira. No início dos anos 2000, decidi fazer faculdade de Ciência da Computação. Eram 60 alunos, sendo apenas duas mulheres”, lembra.

Embora ela ser sempre a única mulher entre as equipes, Gracieli nunca deixou que isso fosse um empecilho para procurar o seu lugar ao sol e impor respeito entre os colegas.

“O nosso lugar é onde a gente quiser, independentemente do ramo de atuação. Estamos no mercado de trabalho para agregar e somar. Somos pessoas e não apenas homens e mulheres”, diz Gracieli Ferreira Ribeiro, analista de sistemas.

A jovem Thuany Cola da Silva, de 20 anos, está no último período do curso de Tecnólogo em Análise e Desenvolvimento de Sistemas da Faesa e já foi contratada por uma grande empresa.

Ela conta que desde pequena tem interesse na área de tecnologia e que mexia em computadores mais do que os irmãos. “Ao escolher a carreira, tinha receio de sofrer preconceito, mas o que ocorre é exatamente o contrário. Houve uma evolução grande no mercado e fico muito feliz em ver que as meninas estão cada vez mais se sentindo confortáveis em trabalhar com TI”, ressalta.

Na empresa onde trabalha, Thuany começou como estagiária e hoje já ocupa o cargo de analista de sistemas. Para a jovem, o que vale é o esforço profissional.

“Consegui crescer graças ao meu esforço e ao olhar que a empresa tem sobre mim. Para se destacar no ramo, é necessário buscar conhecimento e evoluir profissional e pessoalmente. Espero que haja cada vez mais mulheres na área. A minha dica é: se é algo que você goste, siga em frente, só não vale desistir de seus sonhos”, diz Thuany Cola da Silva, analista de sistemas.

O crescimento da mulher no mercado de TI

As mulheres têm como característica o fato de estarem sempre atentas aos detalhes e a habilidade passou a chamar a atenção no segmento de informática. A observação é do CEO a Mitis, Rodrigo Maxwel Carvalho e Barbosa.

Segundo o empresário, as mulheres têm tudo para se destacar nesse setor. “Elas são mais detalhistas que os homens e como conseguem ser multitarefa desenvolvem mais de um trabalho ao mesmo tempo, o que assegura um melhor resultado”, pontua.

Já na Sankhya, o diretor Renato William comenta que a ocupação de cargos pelas mulheres chega a 45% em todas as áreas. “Todos somos complementares. As habilidades masculinas e femininas, juntas, formam um time melhor. A competição ocorre de igual para igual em um perfeito equilíbrio”, diz.

A diretora administrativa e financeira da Arco Tecnologia, Carla Cristine de Souza Borges destaca que começou a observar um aumento no interesse das meninas nos cursos voltados para a área de TI. Por conta disso, o quadro de funcionários e estagiários também passou a ser ocupado por mulheres.

“Antes eram só os meninos. A mulher tem um jeito diferente de tratar as pessoas e isso acaba sendo um diferencial para empresa. Elas são mais organizadas”, resume.

A diretora da Selecta Vânia Goulart ressalta que apenas 30% dos cargos na área de TI são ocupados por mulheres, mas que a tendência é de aumento nessa realidade ao longo dos anos. “A tecnologia está cada dia mais interativa e as mulheres ganham muito neste aspecto. Esse mercado também feminino”, avalia.

Para ampliar o interesse das mulheres no ramo da tecnologia, a Associação Capixaba de Tecnologia (Act!on) busca parcerias com instituições de ensino, como o Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes). A ideia, segundo o presidente da entidade, Emílio Barbosa, é desenvolver programas que estimulem a busca feminina pela área de exatas.

“Quando abro uma vaga de emprego em minha empresa, por exemplo, recebo 20 currículos, sendo apenas um de candidata feminina. O mercado não cria restrições, mas é preciso despertar o interesse delas neste segmento. Vamos trabalhar para criar cada vez mais oportunidades e estímulo para a participação de mulheres nos cursos técnicos, na faculdade e, claro, nas empresas do nosso segmento”, frisa.

O mercado de trabalho na área de TI está aquecido e enfrenta escassez de mão de obra, conforme lembra a professora da Unidade de Computação da Faesa, Renata Cristina Laranja Leite.

“Acredito que a pouca procura de meninas por esses cursos é a falta de divulgação de que esta área é boa para todos. Elas são mais atentas, criteriosas e organizadas, enquanto que os garotos querem resolver tudo logo e não estão atentos aos detalhes. As empresas estão, inclusive, abrindo programas para incentivar mulheres na área, talvez esse possa ser um atrativo a mais”, finaliza.

Fonte: A Gazeta

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