Estudo comprova: mulheres são menos creditadas na ciência do que homens

Estar na ciência é uma tarefa mais difícil para as mulheres – e não só por causa da jornada dupla de trabalho (a ciência somada aos afazeres domésticos), do assédio e do preconceito que elas enfrentam. As cientistas têm de se esforçar significativamente mais para que suas contribuições sejam reconhecidas, e muitas vezes são deixadas de lado nos estudos em que participam.

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Mulheres na Ciência

A desigualdade de gênero na ciência não é novidade, claro. Mas faltava colocar a diferença na ponta do lápis e entender sua razão de ser. “Sabemos há muito tempo que as mulheres publicam [artigos científicos] e patenteiam [invenções] a uma taxa menor do que os homens”, afirma Julia Lane, da Universidade de Nova York, coautora de um estudo sobre quem recebe crédito por projetos científicos e quem não recebe.

Lane e seus colegas usaram um banco de dados chamado UMETRICS, organizado pelo Censo americano e pelo Instituto de Pesquisa em Inovação e Ciência da Universidade de Michigan (EUA).

Essa plataforma reúne informações sobre o investimento em pesquisa nas universidades americanas. São dados de 128 mil pessoas que trabalham (ou trabalharam) em 9,7 mil equipes de pesquisa – docentes, alunos e pesquisadores em geral.

A partir dela, a equipe de Lane pôde descobrir quem exatamente estava envolvido e sendo pago em projetos de 52 faculdades e universidades, entre 2013 a 2016. Esses dados foram vinculados a informações de autoria de patentes e artigos publicados em revistas científicas.

Assim, eles puderam descobrir quem trabalhava nos projetos e acabou sem receber crédito por suas contribuições. Os resultados, que foram publicados na revista Nature, mostraram que as mulheres são menos propensas do que homens a serem creditadas – lacuna que afeta negativamente suas perspectivas de carreira na ciência.

Segundo os autores do estudo, há uma diferença de 59% entre a nomeação de mulheres e homens em patentes relacionadas a projetos em que ambos trabalharam. Elas têm menos chance de receber crédito por seu trabalho mesmo nas áreas em que formam a maioria dos pesquisadores – como a área da saúde.

A diferença é vista principalmente nos estágios iniciais de carreira. A análise de dados mostrou que 15 em cada 100 estudantes de pós-graduação do sexo feminino foram nomeadas como autoras de artigos científicos. Enquanto isso, 21 em cada 100 homens na mesma posição receberam crédito.

Também se percebeu, entre os projetos analisados, que as mulheres são menos propensas a serem indicadas como autoras de estudos quando estes eram publicados em periódicos científicos de alto impacto – que são referência no meio acadêmico.

As consequências desse cenário são fáceis de se imaginar. À medida que cientistas mulheres recebem menos crédito do que homens, mesmo contribuindo da mesma forma em projetos de pesquisa, elas têm mais dificuldade de crescer profissionalmente e conseguir bolsas ou cargos.

Em uma pesquisa com mais de 2,4 mil cientistas realizada pela equipe de Lane, como forma complementar de informações, 43% das mulheres disseram ter sido excluídas de um artigo científico para o qual contribuíram. Entre os homens, 38% dos entrevistados já se sentiram assim.

Mais mulheres relataram situações de discriminação e preconceito, em que suas contribuições eram subestimadas. Outras minorias sociais e estrangeiros também afirmaram que precisam se esforçar mais do que seus colegas para terem seu trabalho reconhecido.

Com os resultados obtidos, os autores do estudo esperam oferecer pistas sobre como a produção de conhecimento científico se organiza – e ajudar na formulação de políticas públicas que possam aumentar a diversidade na ciência.

“Pelo menos algumas das diferenças de gênero observadas na produção científica podem existir devido a diferenças na atribuição, não na contribuição científica”, escrevem os pesquisadores.

Você pode conhecer oito mulheres que fizeram contribuições históricas para a ciência nesta matéria da Super. Também pode ficar por dentro do trabalho de cientistas brasileiras contemporâneas em nosso blog Mulher Cientista.

Fonte: Superinteressante

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