Covid longa afeta mais as mulheres, indica estudo com pacientes do DF

A pandemia do novo coronavírus produz um número ainda incontável de outros tipos de vítimas: as que sofrem com sequelas permanentes ou transtornos provocados pela covid-19. Pesquisa inédita no mundo revela que mulheres são mais afetadas pelas sequelas da infecção do que homens. Além disso, 91,2% das pessoas que contraíram a doença apresentam perda de memória e fadiga, enquanto 8,8% desenvolvem outras enfermidades.

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O estudo Manifestações neuropsicológicas de covid longa em pacientes brasileiros hospitalizados e não hospitalizados é coordenado pela neurocientista Lúcia Willadino Braga, presidente do Hospital Sarah Kubitschek, e foi elaborado com base no quadro de pacientes do Distrito Federal. Participaram da pesquisa 614 pessoas com algum tipo de problema decorrente da doença, mesmo após a recuperação. Nesse grupo, 73% eram mulheres e 27%, homens.

Entre elas, todas relataram perda de memória nos meses seguintes à infecção pelo novo coronavírus. “O que assusta é que você pega uma gripe e, uma semana depois, ela passa. Com a covid-19, você sai do quadro, mas fica com a memória e toda a capacidade de planejamento muito atingida. E o planejamento está em absolutamente tudo na vida”, destaca Lúcia Willadino.

A média de idade dos pacientes que participaram do levantamento era de 47 anos. Mais da metade deles eram casados, com ensino superior completo e em atividade na carreira. O perfil, segundo a neurocientista, facilitou o diagnóstico. “Eram profissionais que, antes da covid-19, conseguiam fazer determinadas tarefas e, após a doença, ao retornarem ao trabalho, encontraram dificuldades para realizar atividades de rotina”, comenta.

A pesquisa será apresentada pela primeira vez nesta segunda-feira (27/6), na reunião geral do Núcleo Brasília do Grupo Mulheres do Brasil (GBM — leia Encontro no CCBB Brasília). E, menos de um dia após a divulgação na NeuroRehabilitation, uma das mais importantes publicações científicas do mundo, Lúcia Braga recebeu convites para apresentar o estudo nos Estados Unidos e na França. Confira a íntegra da entrevista concedida pela neurocientista ao Correio, no hospital Sarah Centro.

Neurocientista Lúcia Willadino Braga, coordenadora da pesquisa e presidente do Sarah Kubitschek – (crédito: Carlos Vieira/CB)

Por que a senhora decidiu fazer esse mergulho para entender as sequelas da covid-19?

No primeiro ano de pandemia, os pedidos de atendimento de pessoas que tiveram covid-19 passaram a representar 30% de toda a demanda por consultas na Rede Sarah. Mas não sabíamos como tratar as pessoas. Para isso, precisávamos descobrir quem eram esses pacientes, que tipo de problema neuropsiquiátrico e neuropsicológico eles tinham e se havia alguma relação com a gravidade do quadro da covid-19.

O que se descobriu?

Dos 614 pacientes que participaram da pesquisa, 73% eram mulheres, e isso não tem relação com o fato de a mulher cuidar melhor da saúde e procurar mais atendimento médico. As mulheres foram mais afetadas pelos problemas neuropsicológicos e neuropsiquiátricos. No dia a dia, elas tiveram capacidade de planejamento, memória e fluência verbal afetadas, além de depressão e transtornos de humor.

Elas são mais atingidas ou foram mais as mulheres que procuraram ajuda?

Levantamos essa hipótese quando vimos esse predomínio das mulheres. A primeira coisa foi olhar para a estatística geral, porque tem aquela coisa de que a mulher, de fato, procura mais a saúde preventiva do que o homem. Peguei as estatísticas de toda a Rede Sarah para ver qual é o percentual de homens e mulheres que nos procuram. Normalmente, para as outras patologias, sabemos que atendemos, mais ou menos, 2 milhões de pacientes por ano. Desse total, aproximadamente 51% são mulheres e 49%, homens. É mais ou menos o que é o Brasil. E, no pós-covid, tivemos essa diferença maior de mulheres que nos procuraram com sequelas.

Em quanto tempo as sequelas ou os distúrbios pós-covid aparecem?

Logo após a fase aguda, de um a dois meses depois. Essa doença afeta o corpo humano de forma multissistêmica. Ela afeta o cérebro, o raciocínio, o pensamento, a memória, o afeto e o humor. Essas pessoas precisam de reabilitação, e percebemos uma melhora importante (do quadro) após um ano de covid-19.

Houve relação entre as sequelas e a gravidade do quadro de covid-19?

Descobrimos que elas não têm relação com a gravidade da infecção por covid-19. Elas aparecem em pacientes com sintomas leves, em quem precisou ficar na enfermaria, na UTI (unidade de terapia intensiva) e em quem foi intubado. De todas as pessoas que participaram do estudo, apenas um terço foi hospitalizado. Então, você vê que a hospitalização não teve ligação direta. Os não hospitalizados foram 408; internados em enfermaria, 100; e quem precisou de UTI, 41.

Com o conhecimento que se tem hoje, é possível afirmar se essas sequelas são temporárias ou perenes?

Ainda é cedo para avaliar se serão perenes.

A senhora falou sobre comprometimento do afeto. Como é isso na prática?

A pessoa perde ou fica com a capacidade de demonstrar afeto comprometida. Em um dos testes, você pede para a pessoa dizer a mesma frase demonstrando animação e tristeza. Por exemplo: “O time tal perdeu o campeonato”. Quando o paciente executa o pedido, não consegue expressar esses sentimentos na voz, por exemplo. A demonstração de afeto ficou entre os que tiveram os piores escores, junto a perda da memória.

Como é o processo de reabilitação desses pacientes?

A avaliação é individual e o trabalho, em grupo. As sequelas assustam muito. A psicóloga dá dicas sobre o que fazer para melhorar a memória e (sugere) exercícios físicos.

Como as pessoas chegam ao Sarah?

Muito angustiadas. Diferentemente de um paciente com quadro de demência, que, às vezes, não percebe a doença, os pacientes pós-covid-19 têm toda percepção de que estão perdendo as capacidades físicas e mentais. Recebemos uma professora que esqueceu o conteúdo para ministrar aula; uma médica que, na escuta do paciente, não conseguia reter as queixas para diagnosticar e prescrever (os remédios); um motorista que esqueceu como dirigir em Brasília — e olha que, em Brasília, o endereçamento é por número; tem uma lógica. Então, as pessoas precisam buscar ajuda o mais cedo possível. Fechou a fase aguda da infecção por covid-19, procure ajuda (leia Serviço).

Encontro no CCBB Brasília

Na próxima reunião do núcleo brasiliense do GBM, Lúcia Braga apresentará o estudo Problemas de memória e atenção nas mulheres pós-covid, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). A pesquisa, além de incluir os dados sobre o público feminino ser mais acometido pelas sequelas da doença, trata de enfermidades desconhecidas provocadas pela infecção, como deficiências na concentração, na expressão de afeto e na fluência verbal. O estudo apontou, ainda, que todos os 614 participantes tiveram algum grau de perda de memória. O Grupo Mulheres do Brasil surgiu em 2013, criado por 40 integrantes de diferentes segmentos com o intuito de engajar a sociedade civil na conquista de melhorias para o país. Atualmente, a presidente do projeto é a empresária Luiza Helena Trajano.

Serviço

A reabilitação de pacientes pós-covid-19 na Rede Sarah é gratuita e ocorre em todas as unidades do hospital no país. Para isso, basta acessar o site www.sarah.br e clicar no painel “Reabilitação pós-covid-19”. Um banner com uma lista de sequelas e distúrbios provocados pelo novo coronavírus aparecerá, com a seguinte orientação: “Para solicitar um atendimento, clique aqui”. Os próximos passos são intuitivos no site.

No detalhe

Características sociodemográficas dos pacientes que participaram da pesquisa:

TOTAL: 614

Mulheres: 541 (73%)

Homens: 163 (27%)

IDADE

18-39 anos: 141 (23%)

40-59 anos: 383 (62%)

60 anos ou mais: 90 (15%)

ESCOLARIDADE

Ensino básico: 31 (5%)

Ensino médio: 34 (6%)

Ensino superior: 216 (35%)

Pós-graduação: 333 (54%)

ESTADO CIVIL

Casado(a): 338 (55%)

Divorciado(a): 77 (13%)

Solteiro(a): 181 (29%)

Viúvo(a): 18 (3%)

CONDIÇÃO SOCIAL

Economicamente ativos: 457 (74%)

Aposentados: 72 (12%)

Desempregados: 59 (10%)

Afastados por doença: 26 (4%)

Fonte: Correio Braziliense

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