Resolvi escrever, quem sabe, para poder ajudar outras mulheres, maridos, famílias e amigos de mulheres que passaram pelo mesmo que eu.

Em agosto de 2019 sofri um aborto retido. Sem explicações técnicas, um abordo retido é quando o embrião não tem mais vida, porém, o corpo da mãe não reconheceu isso ainda. Isso faz com que o corpo mantenha o bebê lá dentro, sem nenhum sangramento.

Ao receber a notícia de que o meu bebê não tinha mais batimentos cardíacos, eu não queria falar com ninguém. Meus pais sabiam que eu teria o exame marcado aquele dia e queriam notícias. Eu não queria ter que dar essa notícia a eles. Meu marido fez isso. A dor naquele momento era tanta que eu não queria ter que falar disso e receber abraços ou palavras de conforto. Não sei o motivo, mas naquele momento eu não queria. Só queria chorar e ficar deitada ao lado do meu marido.

Com essa atitude, acabei afastando as pessoas próximas a mim, que posteriormente, nem tocavam neste assunto. E isso, depois de um tempo, começou a me machucar também. Então, família, abrace! Simplesmente abrace. Não é porque não falamos disso, que significa que estamos 100%. A dor é constante, apesar da vida seguir. E deve seguir! Mas a dor de vez em quando bate na porta. É ver alguma barriguinha de gravidez, é ver uma roupinha de bebê, um pacote de fralda, sentir uma cólica e ver a menstruação vindo todo mês e com isso, lembrar do procedimento de curetagem. Ou simplesmente lembrar de tudo o que passou. Ela sempre vem. Mas a vida precisa seguir. E vocês, pais, marido, família e amigos, são muito preciosos nestes momentos. Escutem! Não menosprezem o sentimento. Se não sabe o que falar, só dê um abraço. Chore junto se for preciso.

Eu sei que a intenção é a melhor, mas por favor, não falem que tudo vai passar pois “você vai ter outro”, ou “ele podia ter algum problema”, “ainda bem que foi no começo”, ou então “o que você fez pra isso acontecer?”. Por isso, muitas vezes um abraço e o silêncio são as melhores coisas.

Depois vem a culpa. Você vai se sentir culpada. Não vou mentir que de vez em quando me pego pensando o que eu posso ter feito pra isso acontecer, ou o que eu podia ter feito pra evitar. Mas eu te digo, não pense nisso. Ia acontecer de qualquer jeito. O seu bebê está com Deus e só Ele sabe o que é melhor para nós.

Você com o tempo vai se sentir melhor em falar abertamente sobre isso e, inclusive, isso pode até te ajudar. Você vai perceber que é mais comum do que imagina e que aquele percentual que o médico te diz, que parece pequeno, pequeno, na verdade é grande. Pra mim, saber que eu não era tão minoria assim, me fazia sentir menos excluída. Sempre tem alguém que já passou por isso, ou que conhece alguém que já passou.

Eu, que nunca tinha ido a um psicólogo, fui recomendada pelo médico a procurar um, pois isso que eu estava passando era um luto e precisava ser superado. É importante procurar ajuda para virar essa página. As vezes vai parecer que nada está adiantando, mas quando você olha pra trás, verá a sua evolução.

Não compare sua dor com a dor do seu companheiro. Cada pessoa sofre e reage de um jeito. O fato dele não chorar, ou não sofrer como você, não significa que ele não esteja de fato sofrendo. Homens tendem a ser mais fechados e eles acabam tendo que demonstrar mais força para nos manter de pé nesse momento tão dolorido. Muitos casais, inclusive, se separam após esse tipo de perda. Por isso, é importante um apoiar o outro.

Por fim, sinta-se apoiada por todos que te amam. Sinta-se abraçada por mim. Família, amigos, maridos, namorados, deem apoio nesse momento. Se quiserem conversar, estou aqui.

Hoje, seria o provável dia que eu já estaria com meu bebê nos meus braços. Por isso, decidi encerrar esse ciclo. E, no momento certo, aguardar o meu arco-íris depois da tempestade.

Por: Ellen Avallone
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