5 mulheres cientistas que você precisa conhecer

Imagine um planeta de águas e clima amenos, impensavelmente distante da Terra, em que também se deu o fenômeno da vida (pois essa é uma possibilidade estatística). Imagine então que essa vida, ao longo do tempo geológico, evoluiu por seleção natural; e uma das espécies existentes hoje possui um órgão com função de computador, de capacidade similar à do cérebro humano. Essa espécie deu origem à uma civilização, que acumulou conhecimento sobre o Universo por meio do método científico. Homens e mulheres.

Agora imagine que alguns de nós, Homo sapiens da Terra, conseguem alcançar esse planeta em uma espaçonave hipotética sofisticada – e agora estão observando, com um binóculo, a rotina dos cientistas dessa civilização alienígena. E aí esses Homo sapiens descobrem algo incompreensível: 50% da população alienígena foi proibida de fazer ciência. Por nenhum motivo: os tais ETs optaram por diminuir o próprio avanço científico pela metade só por que não aceitam que 50% da população trabalhe em um laboratório.

Estranho. É algo de uma burrice monumental. Os Homo sapiens exploradores buscam uma explicação. Em uma inspeção mais detalhada, percebe-se uma coisa: os alienígenas que são impedidos de fazer ciência são os alienígenas que, no ritual reprodutivo, fornecem o gameta maior – o que se chamaria, entre terráqueos leigos, de óvulo. Só são autorizados a trabalhar com pesquisa os alienígenas que produzem espermatozoides. Faz algum sentido? Bem, nenhum. Não há relação entre o tamanho do gameta produzido por alguém e sua capacidade de pensar.

Esse planeta, óbvio, é a própria Terra na virada para o século 20 – esqueça aquela história de “impensavelmente distante” do começo do texto. As mulheres não têm espaço na ciência desde que existe algo chamado ciência. Em 1891, Marie Curie – o único ser humano a ganhar dois prêmios Nobel de ciências naturais em áreas diferentes (Física e Química) – foi estudar em Paris pois nenhuma faculdade da Polônia, seu país natal, aceitava mulheres. Em Paris, tornou-se a primeira mulher com um título de doutora na França. A situação melhorou um pouquinho de lá até aqui, mas não muito: as mulheres ainda são 49% da população e só 28% das cientistas. Têm mais dificuldades em conseguir bolsas e cargos, e sofrem com assédio e o preconceito no ambiente de trabalho.

A seguir, vão cinco mulheres que mudaram o mundo.

Rosalind Franklin

Quando Rosalind Franklin era criança, seu irmão a viu perguntar à mãe: “Bem, como você sabe que Deus é Ele, e não Ela?” A provocação foi longe: em 1938, Franklin se matriculou no Newnham College de Cambridge, da Inglaterra – uma das únicas instituições de ensino superior femininas da época. Graduou-se em físico-química, e se tornou especialista em uma técnica chamada cristalografia de raios x. ⠀

Para entendê-la, é preciso revisar rapidamente o que é um cristal e o que são raios x. Um cristal é um sólido cuja estrutura, no nível microscópico, é repetitiva e gera padrões – como os hexágonos de uma colmeia de abelha. Já raios x são essencialmente um tipo de luz que o ser humano não é capaz de enxergar. Eles atingem energias bem mais altas que a radiação eletromagnética no espectro visível (a que os nossos olhos captam).  ⠀

Quando os raios x atingem uma amostra de cristal, penetram a amostra e se dispersam em diversas direções, seguindo um padrão caleidoscópico único. Assim, a cristalografia de raios-x dá dicas importantes sobre a estrutura das moléculas que compõem o cristal.⠀

Na década de 1950, trabalhando no laboratório de Maurice Wilkins, Franklin e um de seus estudantes cristalizaram um punhadinho de ácido desoxirribonucleico (DNA) – uma molécula que na época, graças ao trabalho de Oswald Avery, já se sabia ser a portadora da informação hereditária –, aplicaram a técnica e conseguiram a imagem que você vê abaixo. A “Foto 51” foi o primeiro vislumbre da estrutura dupla-hélice, a escada torcida que hoje é parte integrante do imaginário popular (e da lista de emojis).

A história daqui em diante é polêmica, mas o resumo é: a imagem foi mostrada por Wilkins a dois outros cientistas, James Watson e Francis Crick. Eles mataram a charada na hora, e propuseram o pareamento das bases nitrogenadas A, T, C e G que, hoje sabemos, é usado para escrever o manual de todos os seres vivos da Terra. Franklin morreu de câncer nos ovários em 1958, aos 37 anos, antes de receber o prêmio Nobel pela descoberta.

Barbara McClintock

A geneticista Barbara McClintock é uma das inúmeras mulheres que dedicou a vida a estudar os cromossomos do milho. Achou um tédio? Achou errado.Espigas são inestimáveis para pesquisas sobre hereditariedade, porque cada grão de milho espetado em sua superfície é, na prática, um embrião fecundado. Assim, aquele potinho de isopor com manteiga e sal que você compra em terminais de ônibus contém dezenas de bebês-planta resultantes de um mesmo cruzamento, cada um com uma combinação única de genes.

Certas espigas produzem grãos de cores diferentes – alguns roxos, outros marrons, outros pontilhados. Essas cores são produto da interação entre os genes envolvidos na pigmentação em cada grão. Em resumo, a espiga é um paraíso para brincar de Mendel – com um detalhe: o sistema de determinação de cor das espigas funciona com três alelos, em vez da dupla dominante e recessivo (Aa) mais simples que estudamos no ensino médio usando a cor das ervilhas de exemplo.

Analisando espigas, McClintock descobriu que existem pedacinhos de DNA particularmente pentelhos chamados genes saltadores: eles não têm posição fixa no cromossomo, e conforme pulam para lá e para cá, inibem ou incentivam a produção de pigmentos por outros genes, determinando a cor dos grãos. Essa pesquisas tiveram incontáveis desdobramentos – entre eles, a descoberta do brasileiro Alysson Muotri de que os genes saltadores são parte do que torna o cérebro humano único (leia aqui).

A descoberta dos genes saltadores (chamados tecnicamente de elementos transpositores ou transposons) é seu maior legado, mas McClintock chutou uma porção de outros baldes ao longo da carreira. Em 1983, ela se tornou a primeira mulher a ganhar, sozinha, o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia.

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Lynn Margulis

Muito antes de surgir os primeiros animais, homens e mulheres, toda a vida na Terra era microscópica e unicelular. Consistia em bactérias, essencialmente. Bactérias na água, na superfície e no subsolo, experimentando uma miríade de truques bioquímicos.

Foi lá que uma bacteriazinha teve uma sacada digna de Elon Musk: usar os fótons que chegavam do Sol, combinados com o gás carbônico abundante disponível na atmosfera, para produzir açúcar (isto é, comida). O nome desse processo é fotossíntese, e ele foi ridiculamente bem-sucedido. Afinal, permitia à dita cuja viver de luz, como um bom hippie.

Só tinha um problema: a tal da fotossíntese liberava pelo escapamento um gás raro na Terra daquela época – e muito tóxico. O nome dele é oxigênio. Vários micróbios não conseguiram lidar com a novidade e morreram, em um dos grandes eventos de extinção da história da Terra. Outros, porém, deram um jeito de se aproveitar do oxigênio para gerar a própria energia, usando um processo chamado respiração.

O melhor, porém, estava por vir. Um belo dia, uma bactéria com fome, que não sabia respirar oxigênio, engoliu uma outra bactéria, menor, do tipo que sabia respirar oxigênio. Ela teve uma indigestão e, por qualquer motivo, não conseguiu digeri-la. Milagrosamente, a bactéria engolida não só continuou respirando como começou a se multiplicar lá dentro. Se tornou uma usina de processamento de oxigênio instalada no “estômago” da bactéria maior, que fornecia muita energia. Era uma revolução tecnológica.

Essa dupla inusitada de bactérias conseguiu fazer coisas que nenhuma bactéria sozinha conseguiria. Por exemplo, dar origem a seres multicelulares como você, caro humano leitor. Hoje essas bactérias engolidas continuam dentro das nossas células, respirando para nós. Elas se chamam “mitocôndrias”. As bactérias que faziam fotossíntese também foram engolidas eventualmente, e de maneira análoga se tornaram os cloroplastos das células vegetais.

A teoria de que as mitocôndrias são ex-bactérias engolidas se tornou consenso científico graças ao trabalho da bióloga Lynn Margulis. Não sem esforço: o artigo de 1967 em que ela apresentou a ideia foi rejeitado por 15 periódicos científicos (ela chegou a receber, por escrito: “seu trabalho é um lixo, não tente de novo”). Os 15 periódicos estão arrependidos até hoje.

Ada Lovelace

Ada Lovelace foi uma dessas mulheres impressionantes. Sendo a única filha legítima de Lord Byron – um dos poetas mais famosos do romantismo inglês, autor de “Don Juan”. Ele se separou da mãe, Anne Isabella Byron, um mês após o nascimento da criança, em 1815.

Anne deu a Ada uma educação científica muito incomum para mulheres na época. O objetivo da mãe era garantir que a filha focasse nas exatas e não seguisse a carreira poética de Byron – que era ligeiramente biruta e completamente promíscuo.

Aos 17 anos, Ada Lovelace começou a trocar cartas com o polímata Charles Babbage – criador de uma calculadora mecânica imensa e repleta de engrenagens batizada de “máquina diferencial”. Eles batiam muitos (muitos) papos cabeça. Uma réplica contemporânea da máquina diferencial de Babbage, diga-se de passagem, foi visitada recentemente por Elizabeth II, rainha da Inglaterra.

Entre uma carta e outra, Babbage revelou a Lovelace o projeto de uma engenhoca ainda mais avançada: a “máquina analítica”, o primeiro computador de uso geral da história.

Lovelace viu muito potencial na máquina analítica. Em 1834, prestou um favor a Babbage traduzindo do francês um memorando sobre a engenhoca (Babbage não conseguiu financiamento do governo britânico para construi-la na prática, então buscou apoio em outros países europeus). Ao final da tradução, Lovelace inseriu uma seção complementar intitulada simplesmente “notas” – em que demonstrava um algoritmo que a máquina seria capaz de resolver. Era o primeiro programa de computador da história – e ela é tida como a primeira programadora.

Lovelace morreu de câncer no útero aos 37 anos, e foi enterrada ao lado do pai que nunca conheceu. Seu retrato mais famoso é este, com penteado de Princesa Leia.

Jane Goodall

5 mulheres cientistas que você precisa conhecer

Jane Goodall é uma dessas grandes mulheres. Ela tinha só um curso de datilografia no currículo quando viajou para a fazenda de um amigo no Quênia, em 1957. Ela estava atrás de Louis Leakey, um famoso estudioso das origens do ser humano. Queria, na cara dura, um emprego: seu sonho era estudar chimpanzés.

Começou como secretária, mexeu os pauzinhos e logo subiu: em 1960, começou a fazer pesquisa no parque nacional de Gombe Stream, na Tanzânia. Ela observava um chimpanzé de cavanhaque branco batizado de David Greybeard há duas semanas quando ele pegou um talo de capim, o inseriu no túnel de um cupinzeiro e comeu os cupins que aderiram a ele.

Em outra ocasião, Greybeard limpou as folhas de um galho para usá-lo da mesma forma. Foi o primeiro registro da fabricação e uso de ferramentas por uma espécie não humana. Leakey, ao receber a notícia, enviou um telegrama, em choque: “Temos que redefinir ferramenta. Redefinir homem. Ou aceitar que chimpanzés são humanos.”

Greybeard era o trunfo de Goodall: antes, ele já havia sido flagrado comendo a carcaça de um pequeno animal, desmentindo a crença de que chimpanzés fossem herbívoros. Foram duas descobertas fora de série, que garantiram uma bolsa de pesquisa da National Geographic Society (sim, a mesma sociedade científica que dá nome à revista).

Posteriormente, Goodall registraria outros atos de violência: chimpanzés cercavam, matavam e comiam primatas menores com frequência. Mesmo sem graduação, Goodal foi autorizada a fazer um doutorado em etologia (comportamento animal) em Cambridge.

Goodall virou lenda e foi objetificada por dezenas de reportagens fotográficas e documentários ao longo de sua carreira, como uma espécie de Jane sem Tarzan. Hoje, é uma importante ativista da causa animal: tem um instituto de preservação ambiental com seu nome e participa do projeto Nonhuman Rights (“direitos não humanos”).

Fonte: Superinteressante

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